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ALT e AST elevadas em praticantes de treino resistido

Um praticante recreativo de musculação vai ao médico, que lhe pede análises de rotina básicas. Entre as quais está a dita “função hepática” com avaliação das transaminases ALT e AST. Os valores retornam acima da referência, digamos em 50 U/L. Pânico! “Toma suplementos?”. Por acaso o desgraçado até toma uma whey pós-treino e faz uma dieta com 2 g/Kg de proteína. “O seu fígado está sobrecarregado com essas coisas que anda a tomar. Deixe já isso”. Não... não está. E como são já inúmeras as vezes com que me deparo com estes relatos, talvez mereça um esclarecimento.


A pergunta que qualquer médico deveria fazer caso todos os outros indicadores se revelem normais seria “treinou nos 3 dias antes da análise?”. Os microtraumas induzidos pelo exercício levam ao extravasamento de conteúdo celular do músculo para o sangue. E o músculo expressa ALT e AST tal como o fígado, embora em menor quantidade. É perfeitamente normal que os valores estejam fora da norma até uma semana após um treino intenso, e para quem treina com relativa frequência os valores de equilíbrio tendem a apresentar-se cronicamente superiores à referência em repouso. Mas com o fígado está tudo bem…


E uma outra questão que deve ser colocada é: "qual o aporte proteico total diário"? Sabemos também que a ALT e AST são enzimas indutíveis pelo consumo proteico. A sua expressão sobe com o aumento da ingestão proteica de forma a garantir uma metabolização mais eficiente. A ALT intervém na gluconeogénese, processo estimulado com um elevado consumo proteico. A AST é importante no ciclo da ureia que permite eliminar a amónia tóxica gerada no metabolismo dos aminoácidos. Como tal, um consumo proteico elevado, com ou sem suplementação, leva a uma resposta adaptativa que passa por uma maior expressão destas enzimas e níveis séricos basais superiores à norma. Suplementando, ou com consumos proteicos elevados, são de esperar valores de AST e ALT acima da norma, mas inferiores ao considerado uma hipertransaminemia de relevância clínica.


As análises bioquímicas de um atleta não podem ser interpretadas nos limites da normalidade pois trata-se de uma população com características e necessidades específicas. E os valores devem ser enquadrados no contexto alimentar e rotina de treino específicas, sob o risco de se cometerem erros de diagnóstico.

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