Magnésio: diferentes tipos têm mesmo diferentes efeitos?
- Sérgio Veloso

- há 5 dias
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Muito se fala das aplicações específicas de cada sal ou quelato de magnésio. Citrato para obstipação, bisglicinato para sono, malato para fadiga, óxido como forma inferior ou inútil. Um marketing muito difundido, mas quando confrontado com a evidência científica disponível, torna-se claro que estamos perante uma extrapolação excessiva de diferenças farmacológicas para alegações clínicas que não foram adequadamente testadas.
Do ponto de vista biológico, independentemente da forma química ingerida, o nutriente biologicamente ativo é sempre o mesmo ião, o magnésio (Mg²⁺). As diferenças entre sais dizem sobretudo respeito ao anião, que pode influenciar a solubilidade, a tolerância gastrointestinal, a quantidade de magnésio elementar por grama de composto e, em alguns contextos experimentais, marcadores indiretos de absorção. O erro conceptual surge quando estas diferenças físico-químicas são interpretadas como equivalentes a efeitos fisiológicos específicos e direcionados, algo que exigiria ensaios clínicos comparativos robustos para ser sustentado. Não existem.
A questão da biodisponibilidade é frequentemente utilizada como pilar central destas claims. Existem, de facto, estudos que mostram que determinadas formas como o citrato de magnésio, bisglicinato, etc, conduzem a um aumento maior da excreção urinária de magnésio ou a um incremento ligeiramente superior do magnésio sérico quando comparadas com o óxido. Estes dados são muitas vezes apresentados como prova inequívoca de que certas formas são “superiores”. Contudo, esta leitura ignora vários aspetos fundamentais. Primeiro, os marcadores usados, magnésio sérico e urinário, são proxies imperfeitos do estado corporal total de magnésio, que é predominantemente intracelular e ósseo. Segundo, estes estudos são altamente heterogéneos em termos de doses, formulações, duração e estado basal dos participantes. Terceiro, uma diferença estatística em excreção urinária após uma toma única não equivale a um benefício clínico mensurável nem justifica inferências sobre sono, fadiga, stress ou função cognitiva. Revisões críticas da literatura sublinham precisamente esta limitação. A biodisponibilidade relativa entre sais varia conforme o contexto experimental e não pode ser diretamente transposta para recomendações clínicas específicas.
Além disso, do ponto de vista fisiológico, a distinção entre diferentes “sais” de magnésio perde praticamente toda a relevância após a absorção intestinal. Independentemente de a fonte ser citrato, bisglicinato, malato, treonato ou óxido, o magnésio é maioritariamente dissociado no trato gastrointestinal e absorvido sob a forma de ião Mg²⁺. Uma vez na circulação sistémica, esse magnésio torna-se quimicamente indistinguível, distribuindo-se entre a fração ionizada livre, a ligação reversível a proteínas plasmáticas e complexos fracos com aniões endógenos, sem qualquer “memória” da sua origem química. A captação pelos tecidos e a concentração intracelular são rigidamente reguladas por mecanismos homeostáticos específicos e não pelo sal ingerido, o que inviabiliza a ideia de que diferentes formas de magnésio tenham destinos ou efeitos sistémicos específicos. Assim, quaisquer diferenças entre sais são essencialmente pré-absorptivas, relacionadas com solubilidade, tolerância gastrointestinal e dose efetivamente absorvida, e não com uma especialização funcional após entrada no organismo.
O caso da obstipação é, talvez, a exceção parcial que ajuda a perceber onde termina a fisiologia e começa o marketing. Aqui, o efeito do magnésio é largamente local e osmótico, dependente da capacidade do sal em atrair água para o lúmen intestinal. Não se trata de “nutrir” tecidos ou modular vias metabólicas, mas de aumentar o conteúdo hídrico das fezes. Neste contexto, faz sentido que algumas formas sejam mais eficazes do que outras. Curiosamente, a literatura clínica mais sólida não aponta exclusivamente para o citrato, mas inclui o óxido de magnésio, frequentemente desvalorizado nas redes sociais. Existem ensaios clínicos que demonstram eficácia do óxido de magnésio na obstipação crónica, com melhoria da frequência evacuatória e do tempo de trânsito colónico. Isto desmonta a narrativa simplista de que o óxido “não absorve” e, por isso, é inútil. Na obstipação, a menor absorção sistémica não é um defeito, mas parte do mecanismo de ação. A escolha entre citrato, óxido ou outras formas neste contexto é, sobretudo, uma questão de previsibilidade do efeito laxante, dose necessária e tolerabilidade individual. Não de especialização metabólica.
Quando passamos para áreas como sono e insónia, o desfasamento entre evidência e claims torna-se ainda mais evidente. Existem estudos que sugerem que a suplementação com magnésio pode melhorar parâmetros de sono, particularmente em populações específicas, como idosos com insónia. No entanto, estes estudos avaliam o efeito do magnésio enquanto nutriente, não a superioridade de um sal específico. Mais recentemente, surgiram ensaios com magnésio bisglicinato que mostram melhorias modestas em escalas de qualidade do sono. Estes dados são frequentemente usados para promover o bisglicinato como “o magnésio do sono”. Contudo, a ausência quase total de estudos comparativos diretos entre sais, controlando a dose de magnésio elementar e utilizando endpoints objetivos, impede qualquer conclusão desse tipo. Acresce que uma parte da narrativa se apoia na presença de glicina no bisglicinato, sugerindo um efeito sinérgico. O problema é quantitativo. A quantidade de glicina fornecida por doses usuais de magnésio bisglicinato é, em geral, muito inferior às doses de glicina isolada usadas em estudos que demonstram efeitos no sono. Assim, a atribuição do efeito à forma química específica parece mais uma construção plausível do ponto de vista de marketing do que uma inferência sustentada pela fisiologia humana ou evidência.
A associação entre magnésio malato e fadiga segue uma lógica semelhante. O argumento habitual invoca o papel do malato como intermediário do ciclo de Krebs, sugerindo que esta forma “aumenta a energia” ou é particularmente indicada para fadiga. Do ponto de vista bioquímico, este raciocínio é falacioso. O facto de uma molécula ser um intermediário metabólico não implica que a sua ingestão oral, ligada a um mineral, aumente de forma relevante o fluxo metabólico mitocondrial em humanos. Não existem ensaios clínicos robustos que demonstrem que o malato de magnésio seja superior a outras formas na redução da fadiga. O que existe, do ponto de vista regulatório europeu, é uma alegação aprovada segundo a qual o magnésio contribui para a redução do cansaço e da fadiga. Esta alegação refere-se ao nutriente magnésio, independentemente da sua forma química, e baseia-se no papel essencial do magnésio em reações enzimáticas e no metabolismo energético. A extrapolação desta alegação para “malato = energia” é, novamente, um salto não suportado pelos dados.
O magnésio L-treonato merece uma atenção especial porque é, talvez, o exemplo mais claro de como uma hipótese mecanística preliminar foi convertida em “verdade clínica” antes de existir evidência humana proporcional ao entusiasmo. A narrativa dominante em torno do treonato assenta quase exclusivamente na ideia de que esta forma de magnésio atravessaria a barreira hematoencefálica mais eficientemente, aumentando as concentrações cerebrais de magnésio e, por essa via, melhorando cognição, memória, aprendizagem e até prevenindo declínio cognitivo. Esta narrativa tem origem essencialmente num conjunto muito limitado de estudos pré-clínicos, sobretudo em modelos animais. O trabalho mais citado é um estudo em roedores publicado por Slutsky et al. (2010), no qual a administração de magnésio L-treonato aumentou os níveis de magnésio no cérebro e foi associada a melhorias em tarefas de aprendizagem e memória sináptica. Este estudo é frequentemente apresentado como “prova” de que o treonato é o único magnésio que chega ao cérebro. No entanto, é fundamental sublinhar vários pontos metodológicos críticos. Primeiro, trata-se de um modelo animal, com doses, metabolismo e permeabilidade da barreira hematoencefálica que não são diretamente transponíveis para humanos. Segundo, o estudo não comparou de forma abrangente o treonato com todas as outras formas de magnésio em condições equivalentes de dose de magnésio elementar. Terceiro, o endpoint central, aumento de magnésio cerebral, foi medido em contexto experimental invasivo, algo que simplesmente não é possível replicar em humanos vivos de forma direta.
Quando passamos para a evidência clínica em humanos, o cenário muda radicalmente. Os estudos disponíveis são escassos, pequenos e com outcomes limitados. Existe um ensaio clínico em adultos mais velhos com queixas cognitivas subjetivas que reporta melhorias modestas em alguns domínios cognitivos após suplementação com magnésio L-treonato durante várias semanas. No entanto, este estudo apresenta limitações importantes. Tamanho amostral reduzido, múltiplos endpoints cognitivos (aumentando o risco de falsos positivos), ausência de comparação direta com outras formas de magnésio e dependência de testes neuropsicológicos sensíveis a efeitos de aprendizagem e expectativa. Não existe, até à data, evidência robusta de que o treonato seja superior a citrato, glicinato ou outras formas quando a variável controlada é a dose de magnésio elementar.
Do ponto de vista fisiológico, também convém desmontar a ideia implícita de que o cérebro humano estaria carente de uma forma especial de magnésio que só o treonato consegue fornecer. O transporte de magnésio para o sistema nervoso central é rigorosamente regulado, envolvendo transportadores específicos e mecanismos homeostáticos que não funcionam por simples difusão passiva dependente do sal ingerido. A noção de que uma forma oral de magnésio contorna elegantemente esta regulação e “entra no cérebro” de forma privilegiada é, no mínimo, uma simplificação excessiva e, no pior dos casos, biologicamente ingénua. O magnésio L-treonato é um excelente exemplo de como um sinal pré-clínico interessante pode ser transformado, através de marketing, numa promessa clínica desproporcionada. A evidência disponível permite, no máximo, afirmar que o treonato é uma forma segura de fornecer magnésio e que existem hipóteses ainda não confirmadas sobre possíveis efeitos cognitivos. O que não permite afirmar é que seja “o magnésio do cérebro”, nem que atravesse a barreira hematoencefálica de forma clinicamente relevante em humanos, nem que produza benefícios cognitivos superiores a outras formas quando a ingestão total de magnésio é equivalente.
A análise crítica da evidência mostra um padrão consistente. As diferenças entre sais de magnésio existem, mas dizem respeito sobretudo à solubilidade, tolerância gastrointestinal e características farmacológicas. A evidência clínica robusta apoia a utilização do magnésio para corrigir déficit nutricional, que é comum, e, em contextos específicos, para obstipação ou para melhorias modestas de sintomas como fadiga ou qualidade do sono. O que não existe é uma base científica sólida que sustente a ideia de que cada sal de magnésio tem indicações clínicas distintas e específicas, comparáveis a fármacos com mecanismos diferenciados. Esta narrativa prospera porque combina fragmentos reais de fisiologia, estudos agudos de biodisponibilidade e efeitos perceptíveis como a diarreia, num discurso coerente e intuitivo, mas que ultrapassa largamente aquilo que os dados permitem afirmar. Uma comunicação honesta, baseada na evidência, deveria reconhecer que a escolha da forma de magnésio deve privilegiar dose adequada de magnésio elementar, tolerância individual, adesão e custo, e que as alegações de “um magnésio certo para cada objetivo” pertencem mais ao domínio do marketing do que ao da ciência.
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