Tudo inflama? A banalização da inflamação na nutrição e na saúde
- Sérgio Veloso

- há 10 horas
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A inflamação tornou-se uma das palavras mais usadas, e menos compreendidas, no discurso contemporâneo sobre saúde. Nas redes sociais e cultura digital, tudo inflama: alimentos, dietas, estilos de vida, emoções, e até respirar já que estamos expostos a inúmeros poluentes ambientais. As pessoas estão todas inflamadas. A dieta é inflamatória. Certos alimentos específicos inflamam silenciosamente e corroem por dentro quem os come. Esta linguagem tornou-se omnipresente, mas profundamente imprecisa. O problema não está no conceito de inflamação, que é central na biologia humana. Está na forma como ele foi descontextualizado, ampliado e mal aplicado, transformando-se numa metáfora vaga, emocionalmente carregada e comercialmente explorada.
Em termos biológicos, a inflamação é um processo fisiológico ativo, regulado e adaptativo, mediado pelo sistema imunitário inato. A sua função é clara e indispensável. Reconhecer uma agressão, conter o dano, eliminar o agente agressor, e iniciar reparação e adaptação. Sem inflamação não há cicatrização, não há defesa contra infeções, não há adaptação ao exercício, não há sobrevivência. Inflamação não é sinónimo de doença ou disfunção. É um mecanismo de proteção e adaptação. A distinção crucial, frequentemente ignorada, é entre inflamação aguda, de natureza transitória e resolutiva, e inflamação crónica, persistente e desregulada, patológica e associada a doenças metabólicas, cardiovasculares, neurodegenerativas, autoimunes e até envelhecimento.
A inflamação é um fenómeno quantificável. Em contexto clínico e experimental, não se diagnostica inflamação com base em sensações vagas, perceções subjetivas ou sintomas inespecíficos, mas através de marcadores objetivos, como proteína C-reativa, velocidade de sedimentação, ferritina, fibrinogénio, contagem leucocitária, ou, em contextos específicos, citocinas como IL-6 ou TNF-α, entre outros. Mesmo o conceito frequentemente invocado de “inflamação subclínica” tem um significado concreto. Alterações ligeiras, mas detetáveis e persistentes, em marcadores inflamatórios, associadas a maior risco cardiometabólico. Fora desse enquadramento, “inflamação” deixa de ser ciência e passa a ser retórica.
É neste ponto que o discurso popular se desvia da ciência, sobretudo quando aplicado à alimentação. O ato de comer, seja o que for, desencadeia respostas metabólicas e imunitárias transitórias. Isso é inevitável e fisiológico, não patológico. A digestão e a absorção implicam contacto contínuo entre o conteúdo intestinal e o sistema imunitário da mucosa. A fase pós-prandial caracteriza-se por alterações transitórias na glicemia, lipemia, stress oxidativo e sinalização inflamatória. Este fenómeno está bem descrito na literatura como inflamação pós-prandial, e ocorre não apenas após refeições “más”, ultra-processadas ou energeticamente densas, mas também após refeições ditas saudáveis dependendo do marcador enfatizado e magnitude. Esta resposta é normal, reversível e necessária em indivíduos metabolicamente saudáveis. Este ciclo de ativação e resolução inflamatória eficiente é um sinal de saúde metabólica.
Um exemplo frequentemente citado é o estudo, patrocinado pelo Hass Avocado Board, que mostrou que adicionar abacate a uma refeição de hambúrguer atenua marcadores inflamatórios pós-prandiais, nomeadamente IL-6. Este resultado é biologicamente plausível, apesar de muito pequeno em dimensão, mas por muitas vezes mal interpretado. O estudo não mostra que o hambúrguer “inflama” nem que o abacate “desinflama” como se fosse um antídoto. Demonstra que a composição da refeição modula a magnitude da resposta imunitária pós-prandial. Mais fibra, mais gordura monoinsaturada, e certos compostos bioactivos no alimento alteram o ambiente metabólico e modulam a resposta aguda. Até porque fica demonstrada a autolimitação da resposta em indivíduos saudáveis, em que a IL-6 não permaneceu elevada por mais de 1h comparativamente à adição de abacate. Não se trata de neutralização de uma suposta toxina inflamatória que acabaste de comer.
O mesmo princípio aplica-se a alimentos frequentemente demonizados, como trigo, outras fontes de glúten e lacticínios. Em indivíduos com doença celíaca ou alergia/hipersensibilidade às proteínas do leite ou do trigo, estes alimentos podem desencadear respostas inflamatórias clinicamente relevantes sim. Mas extrapolar estes contextos específicos para a população geral é um erro. Em indivíduos saudáveis, a ingestão de glúten ou proteínas lácteas pode induzir respostas imunitárias transitórias e fisiológicas naturalmente autolimitadas, como qualquer outro alimento, sem evidência de inflamação crónica ou dano sistémico. Também a intolerância à lactose é frequentemente apresentada como um exemplo de inflamação alimentar, o que é incorreto. Trata-se de um défice enzimático, com consequências osmóticas e fermentativas no cólon, mas sem evidência de ativação inflamatória sistémica ou intestinal. Confundir sintomas digestivos de desconforto com inflamação é um erro conceptual frequente, e um dos motores da banalização do termo. Estás inchado, com gases e desconfortável. Não estás inflamado. Um caso paradigmático em que se usa o termo “inflamação” como rótulo explicativo para qualquer fenómeno percebido como desagradável.
O fator decisivo, reiteradamente confirmado na literatura, não é o alimento isolado, mas o estado metabólico e inflamatório basal do indivíduo. Estudos em humanos mostram que pessoas com obesidade visceral, resistência à insulina, sedentarismo e privação crónica de sono apresentam respostas inflamatórias pós-prandiais mais intensas e prolongadas à mesma refeição que indivíduos metabolicamente saudáveis. Sobre este “fundo inflamado”, a mesma refeição desencadeia respostas de glicemia, triglicerídeos e de marcadores inflamatórios mais altos e mais persistentes do que em indivíduos metabolicamente saudáveis, apesar de o alimento ser exatamente o mesmo. Aqui reside o verdadeiro problema. Não a ativação inflamatória em si, mas a amplificação e a incapacidade de a resolver eficazmente. A inflamação torna-se clinicamente relevante quando deixa de ser transitória, autolimitada e resolvida eficazmente nos seus estímulos sucessivos.
O discurso “anti-inflamatório” popular falha em vários níveis. Falha na definição, ao tratar inflamação como um estado vago e quase místico. Falha na medição, ao declarar inflamação sem biomarcadores ou critérios objetivos. Falha na causalidade, ao atribuir a alimentos isolados efeitos que dependem do padrão alimentar, da dose, da frequência, do estado metabólico e do contexto global do indivíduo. E falha ainda no rigor intelectual, ao substituir fisiologia complexa por narrativas simples, emocionalmente apelativas e comercialmente eficazes.
Uma abordagem cientificamente coerente exige mudar o foco. Em vez de listas de alimentos “inflamatórios” e “anti-inflamatórios”, sem sustentação, importa falar de padrões alimentares favoráveis, saúde metabólica, sono, exercício, composição corporal e aptidão cardiorrespiratória. Comer ativa respostas inflamatórias, sempre. Que se querem autolimitadas e eficientemente resolvidas. Isso não é um defeito do sistema, mas a sua função normal. O problema não está na inflamação como processo biológico essencial. Está em usá-la como explicação universal para tudo aquilo que não se quer, ou não se sabe, explicar melhor. Quando tudo é inflamação, ela deixa de ser um conceito útil e a ciência perde espaço para a retórica.
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