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O mito do detox

Atualizado: 27 de dez. de 2023

As dietas e fórmulas detox proliferam a olhos vistos como estratégias de purificar o corpo da porcaria que nos envenena todos os dias, ou até para perder aqueles quilos a mais. E Janeiro é sempre uma boa altura para uma limpeza geral depois dos estragos da época festiva, e para começar limpinho um novo ano. Mas será que existe algum suporte a estas estratégias que passam invariavelmente pela adição de alimentos funcionais ou fórmulas miraculosas, e na maioria dos casos restrição calórica severa? Não.


Existem várias estratégias detox que podem passar por jejum total ou parcial, alimentos funcionais como os coentros ou Chlorella, vitaminas e minerais, laxantes, diuréticos, ou fórmulas com alegado efeito purificante. São populares entre a vertente mais naturalista da nutrição para atenuar a exposição ambiental a toxinas ou fármacos, ou até para tratar maleitas como distúrbios gastrointestinais, doenças autoimunes, inflamação, fadiga crónica, e até perda de peso. É certo e reconhecido que estamos expostos a uma variedade de lixo nos alimentos que comemos, no ar que respiramos, na água que bebemos, nos cosméticos que aplicamos. A ideia de que podemos purificar o corpo através da nutrição é romântica. E quanto mais duro o programa melhor. Uma espécie de penitência para espiar os pecados da vida Moderna.


Um problema conceptual com estas dietas detox é que raramente especificam a toxina que se propõe a eliminar, quando os processos de metabolização diferem entre xenobióticos (substâncias tóxicas exógenas). Como se colocassem essas toxinas em duas categorias – as más e as piores ainda. Ora, é bem mais complicado do que isso, e impossibilita uma análise científica séria às alegações. Os pouquíssimos estudos efectuados, se é que lhes podemos sequer chamar estudos, padecem de problemas estruturais básicos. São em modelos animais, com graus de exposição absurdamente elevados, e os poucos em Humanos não são randomizados e com um grupo controlo que permita atestar o efeito do tratamento. É importante perceber uma coisa… A tendência natural do corpo é curar e detoxificar. A probabilidade de eu ficar melhor é superior à probabilidade de piorar, simplesmente porque o meu corpo tem mecanismos próprios de “limpeza”. Se eu reduzo a exposição à toxina, a tendência será a sua eliminação do organismo. E sem querer ferir susceptibilidades, alguém dá grande crédito a estudos levados a cabo pela Igreja da Cientologia para tratar os bombeiros após o atentado ao World Trade Center? [LINK] Vá lá…


É verdade que existem estudos que sugerem um efeito positivo de determinados elementos ou alimentos na eliminação de toxinas. Os coentros parecem reduzir a acumulação de cádmio no fígado em 30%, se fossemos trutas [LINK]. E a de chumbo em 22% nos ossos se fossemos ratos expostos a quantidades absurdas [LINK]. Nestes também a Chlorella parece reduzir substancialmente a acumulação de mercúrio e chumbo, quando representa 10% da dieta [LINK]. Muita Chlorella tínhamos de comer… É verdade que a Chlorella, uma alga, parece reduzir a carga de metais pesados em águas residuais. Mas isto é motivo para esperar um efeito semelhante no organismo? Vamos com calma… Ensaios clínicos em Humanos são necessários. Estamos em terreno cinzento e ir mais longe é pura especulação.


No que toca à perda de peso, mais uma vez o grau de evidência é do tipo homeopático. Todos sabemos que existe, mas ninguém o vê. Óbvio que qualquer estratégia que passe por restrição calórica severa vai levar a perda de peso. Não são toxinas… é gordura mesmo! E com a restrição proteica associada à maior parte dos programas, é de esperar que muito desse peso seja músculo. Dificilmente podemos encontrar algo de positivo aqui. E não… Os efeitos secundários descritos, como cansaço, dores de cabeça, náuseas, insónia, ou ansiedade não são consequência das impurezas a deixar corpo como o diabo após exorcismo. É mesmo o deficit energético, acumulação ectópica de xenobióticos lipossolúveis em órgãos como o cérebro, e a sobrecarga hepática que a libertação das toxinas presentes no tecido adiposo provoca à medida que vamos perdendo peso. Alguém tem de fazer a limpeza. O problema é que os processos de detoxificação são dependentes de energia. Ora, em restrição calórica não se espera que o fígado seja particularmente eficiente no processo certo? É uma questão de lógica…


Portanto, as dietas detox que passam por restrição severa podem até apresentar alguns “riscos”. Sabe-se que a perda de peso está associada à libertação de substâncias lipofílicas, com afinidade para a gordura, e a um esforço acrescido do fígado na sua metabolização. Isto já foi verificado em Humanos e em modelos animais, onde se observou uma acumulação ectópica de toxinas no cérebro e rins após perda de peso e dietas “yo-yo” [LINK]. Em deficit energético os mecanismos de detoxificação hepáticos poderão estar comprometidos o que só piora a situação. Ninguém faz detox em jejum! Apenas se expõe menos à porcaria que habitualmente costuma comer, o que não é mau de todo. Mas há outras formas de o fazer. Tipo comer menos lixo e escolher bem os nossos venenos.


Não existe evidência na literatura científica de que as dietas detox possam ter um benefício acrescido na eliminação da carga tóxica a que estamos expostos. Na verdade, até podemos encontrar no bom-senso alguns pontos contra estas estratégias quando passam por processos muito restritivos. Mas livrar o corpo do mal passa invariavelmente por sacrifício, fundamentado essencialmente em crença e muito pouco em ciência. Mal não fará certamente limitar a exposição, mas não se acredite que uma “penitência nutricional” nos vai purificar o corpo dos males da vida Moderna. Lamento.


Pontos-chave:

  • Não existe evidência de que as dietas detox sejam eficazes na eliminação de xenobióticos

  • A informação disponível sobre o efeito de determinados compostos, alimentos, ou protocolos na optimização da detoxificação é limitada a modelos animais e a estudos em Humanos de fraca qualidade metodológica e sem grupo controlo.

  • A detoxificação é um processo dependente de energia, pelo que a restrição calórica ou jejum associado a muitos protocolos poderá ser contraproducente.

  • A perda de peso que se possa verificar está associada à restrição energética e não à eliminação de toxinas. Para mais, essa perda de peso poderá causar uma sobrecarga tóxica aguda com a mobilização dos xenobióticos lipofílicos do tecido adiposo para a circulação.

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