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O chá verde no emagrecimento

O extracto de chá verde, ou o chá em si, é um dos produtos mais utilizados para perda de peso, embora, tal como para a maioria diga-se, a evidência da sua eficácia seja modesta no mínimo. Quer no emagrecimento que no controlo da glicemia, um outro fim para o qual também tem vindo a ser recomendado. Mas o que sabemos realmente acerca do chá verde? Qual a evidência do impacto a nível da composição corporal?


Uma meta-análise de 2009 aos estudos publicados com o chá verde para perda de peso revela de facto um efeito estatisticamente significativo modesto. Questionável é o seu valor prático, já que o tamanho do efeito não excede os 1,3 Kg ao fim de 3 meses em indivíduos com excesso de peso. Além disso, os Asiáticos parecem beneficiar mais da utilização de chá verde para perda ou manutenção do peso do que os Ocidentais, o que sugere factores de confundimento associados aos próprios hábitos ou até um condicionamento pelo brackground genético. Numa amostra combinada o efeito existe, mas isolando os estudos com populações Ocidentais os dados não apontam para um efeito significativo.


Vários mecanismos têm sido apontados para explicar o papel do chá verde na regulação do peso corporal. As EGCG são inibidores da COMT (catecol-O-metiltransferase), uma enzima responsável pela degradação das catecolaminas (ex: adrenalina e noradrenalina), hormonas que estimulam a lipólise. Assim sendo, as EGCG do chá verde poderiam potenciar e amplificar a acção das catecolaminas no tecido adiposo. Este efeito parece ser particularmente evidente no tecido adiposo visceral, mais sujeito à acção das catecolaminas pela elevada densidade de receptores beta-adrenérgicos, e sinérgico com o exercício físico. Além disso, há também indícios in vitro de uma inibição de enzimas lipogénicas e da lipase que digere a gordura alimentar. As doses utilizadas nos estudos variam entre 300-600 mg/d, o equivalente a 0,5-1 L de chá verde por dia.


As EGCG parecem também inibir a digestão do amido quando ingeridas durante a refeição, atenuando picos de glicemia e facilitando a gestão dos níveis de glicose no sangue pós-prandiais. A quantidade necessária de chá verde para este efeito não parece ser proibitivamente elevada, e 1,5 chávenas de chá à refeição deverá ser suficiente de acordo com os dados que dispomos. Mas existe um senão. Concentrações elevadas de EGCG no sangue associam-se a uma intolerância aos hidratos de carbono. O motivo não está ainda claro mas suspeita-se que tenha precisamente a ver com a maior actividade das catecolaminas, lipólise e aumento dos ácidos gordos livres, ou inibição da secreção de insulina pela noradrenalina e actividade simpática.


As diferenças entre o chá verde e o concentrado de chá rico em catequinas está apenas na dose. Não é fácil padronizar a concentração de EGCG na infusão já que será influenciada pela própria erva, pelo tempo de infusão, e temperatura da água. A exposição solar das folhas de chá aumenta o teor em catequinas. Assim, as variedades Japonesas mais apreciadas como o Gyokuro e Kabusecha, cultivados à sombra durante algumas semanas antes da colheita, acabam por ter menor teor nestes compostos. Para se obter uma extracção máxima de catequinas é necessário utilizar água bem quente e manter a infusão por 10 min. Ora, este procedimento estraga totalmente o sabor do chá. Em média, uma chávena de chá (250 mL) tem cerca de 150 mg de catequinas, mas que pode variar substancialmente.


Um outro receio associado ao consumo de chá é o aumento da pressão arterial e taquicardia, que parece menos evidente com o chá verde quando comparado com outros contendo teína, uma xantina aparentada com a cafeína. A própria EGCG pode elevar a tensão arterial por aumento da actividade catecolaminérgica em indivíduos propensos. No entanto, os relatos de hipertensão ou aumento do ritmo cardíaco associado ao chá verde são raros, especulando-se o efeito atenuante que outro composto nele presente poderá exercer - a L-Teanina. A sensibilidade individual deve ser monitorizada em indivíduos de risco, e evitada também em pacientes tratados com anti-coagulantes de reduzida margem terapêutica como a Varfarina. O chá verde pode exacerbar a sua acção.


Não é claro se de facto o chá verde tem efeitos a nível da composição corporal. Apesar de sua acção a esse nível parecer existir, a pequena magnitude coloca dúvidas relativamente à utilidade num regime de perda de peso. O que se consegue com uma intervenção a nível alimentar e actividade física tem um impacto incomparavelmente maior. No entanto, a possível sinergia com o exercício físico e os efeitos antioxidantes reconhecidos ao chá verde fazem dele um elemento de interesse na dieta quando em quantidades moderadas, preferencialmente durante as refeições. Caso gostem do sabor... Se não também não se aborreçam com isso.

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