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Jejum Intermitente e ciclo menstrual

O Jejum Intermitente (IF) é o modelo alimentar do momento, com acérrimos defensores das suas vantagens e como segredo para uma vida longa. Trata-se de um assunto já aqui debatido, mas que nos leva a outro. O impacto do IF na função reprodutora. Numa das rondas de perguntas que habitualmente faço no Instagram foi-me questionado o que achava do IF na reversão de uma amenorreia. Pergunta para a qual dei a resposta que me parecia óbvia. Jejum prolongado, carência energética ou estratégias que o simulam são contraproducentes da reversão da amenorreia secundária, e estão até implicadas num maior risco. Mas ao que parece não é claro para todos, pois dezenas de pessoas me perguntaram porquê.


A amenorreia hipotalâmica funcional é a forma mais prevalente de amenorreia secundária, e cujas causas mais comuns são o stress físico intenso e deficit energético continuado. Mesmo antes de uma redução drástica na massa gorda corporal. Factores que levam à inibição da produção de GnRH no hipotálamo, com consequente diminuição das gonadotropinas LH e FSH e da estimulação das gónadas na produção de hormonas sexuais. Maioritariamente testosterona nos homens, e estradiol e progesterona nas mulheres. Ora, o IF passa precisamente por uma simulação desse estado de privação por um longo período de tempo no dia. A evidência é clara num impacto negativo do IF na produção de testosterona, com uma redução que pode atingir os 20% nos homens. Também no mês do Ramadão, uma prática religiosa que se traduz em IF, se parece verificar uma diminuição da testosterona e líbido. Período onde as anomalias menstruais também aumentam em frequência nas mulheres. Distúrbios no ciclo são relatos comuns com o prolongamento do IF, seja oligomenorreia, alongamento e encurtamento dos ciclos, ou spotting.


A associação entre o IF e amenorreia, ausência de menstruação por pelo menos 3 meses, não é evidente. A maioria dos estudos são demasiado curtos para que se possa manifestar. Existem sim vários estudos em modelo animais que demonstram um impacto negativo do IF na reprodução. E o que conhecemos da fisiologia do jejum certamente não abona em seu favor quando o objectivo é reverter uma amenorreia instalada. Será uma péssima abordagem quando o objectivo é restabelecer o estímulo hipotalâmico e produção das gonadotropinas que regulam o ciclo menstrual. O stress energético causado, e que é na verdade o objectivo do IF, actua precisamente no sentido inverso ao pretendido. A reversão da amenorreia passa sim por um aumento da disponibilidade energética, e quanto menos intermitente melhor. Em stress homeostático podemos-nos tornar mais resilientes, mas a reprodução ficará para depois.


No próximo dia 19 de Dezembro irei realizar um webinar dedicado ao tema, e onde abordaremos estratégias nutricionais e não só para tratamento da amenorreia hipotalâmica funcional. Recuperável com elevadíssima taxa de sucesso sem intervenção farmacológica.

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