Colagénio é melhor do que whey? Leitura crítica de uma meta-análise recente mal interpretada
- Sérgio Veloso
- há 2 horas
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Circula nas redes sociais informação sobre um suposto artigo recém-publicado que, alegadamente, demonstra superioridade do colagénio comparativamente à whey protein para hipertrofia e força (PMID: 41635649). Várias pessoas me enviaram vídeos de “influencers” e da sua interpretação. O artigo em causa apresenta uma network meta-analysis (NMA) que compara diferentes suplementos proteicos associados ao treino de força, concluindo que o colagénio surge, de forma surpreendente, como a intervenção com maior probabilidade de promover ganhos de força e, sobretudo, de massa isenta de gordura. Esta conclusão, amplamente difundida nas redes sociais e já instrumentalizada com motivações comerciais, é claramente abusiva e falsa.
O primeiro problema do trabalho reside num ponto frequentemente omitido: o colagénio não está, na prática, a ser comparado diretamente com a whey protein. A alegada superioridade do colagénio resulta quase exclusivamente de comparações indiretas, mediadas pelo placebo ou por outras fontes proteicas dentro da rede analítica. Existe apenas um ensaio clínico randomizado que compara colagénio e whey de forma direta, claramente insuficiente para sustentar qualquer conclusão comparativa robusta e que nem se mostrou favorável ao colagénio sequer. Ainda assim, os autores avançam com rankings e probabilidades que, fora do contexto estatístico da NMA, são facilmente interpretadas de forma errada como prova de que o colagénio “é melhor” do que a whey.
Este ponto é crítico. Uma network meta-analysis só permite inferências válidas entre intervenções quando o pressuposto de transitividade é cumprido. Isto é, quando os estudos que comparam colagénio com placebo são, em todos os aspetos relevantes, comparáveis aos que comparam whey com placebo. Neste artigo esse pressuposto não está garantido. Variáveis com forte impacto no efeito do treino, como a ingestão proteica basal, balanço energético, historial de treino, idade, ou método de avaliação da massa isenta de gordura, não foram sistematicamente reportadas nem ajustadas. Quando estas condições falham, a comparação indireta entre colagénio e whey deixa de ser inferencialmente legítima e passa a ser essencialmente especulativa.
Importa ainda esclarecer por que motivo o único ensaio clínico que compara diretamente colagénio e whey tem um peso estatístico reduzido na network meta-analysis, apesar de ser, paradoxalmente, o estudo mais relevante do ponto de vista inferencial. Em NMAs, o contributo de cada ensaio para as estimativas globais depende não apenas da sua qualidade metodológica, mas sobretudo da sua posição estrutural na rede e da variância associada aos seus outcomes. Um único estudo head-to-head, com dimensão amostral modesta, contribui pouco para a estimativa global quando está rodeado por múltiplos ensaios indiretos que ligam cada intervenção ao placebo. Assim, mesmo sendo o único teste direto colagénio vs whey, o seu impacto é diluído por dezenas de comparações colagénio-placebo e whey-placebo, muitas delas heterogéneas entre si. Este é um problema conhecido das NMAs: quando a evidência direta é escassa, o modelo passa a refletir sobretudo a coerência interna da rede e não a realidade comparativa entre intervenções. No presente caso, isto resulta numa situação metodologicamente desconfortável em que o único ensaio que testa diretamente a pergunta clínica relevante, e que não demonstra superioridade do colagénio, tem menos influência no resultado do que estudos indiretos, desenhados para responder a perguntas totalmente diferentes. A NMA não contradiz o ensaio colagénio vs whey. Simplesmente atropela-o. Quando um modelo estatístico produz uma conclusão que é mais fortemente determinada por comparações indiretas do que pelo único estudo direto disponível, a inferência deixa de ser confirmatória e deve ser interpretada apenas como exploratória.
A utilização de rankings baseados em SUCRA agrava este problema. O SUCRA expressa a probabilidade de uma intervenção ocupar uma posição superior dentro da rede, mas não mede a qualidade nem a robustez da evidência que sustenta essa posição. Num contexto em que a intervenção com colagénio é suportada por um número muito reduzido de estudos e participantes (40 a 80 indivíduos, dependendo do outcome), e com a whey assente em várias centenas, o ranking torna-se particularmente instável e vulnerável a small-study effects. Este enviesamento estatístico, amplamente descrito na literatura, conduz frequentemente à sobrestimação de efeitos em intervenções com poucos ensaios disponíveis.
A magnitude do efeito atribuída ao colagénio na massa isenta de gordura constitui, aliás, um sinal claro de alerta. Um SMD próximo de 0,9 corresponde a um efeito muito grande, raro mesmo em intervenções farmacológicas, e dificilmente compatível com uma proteína incompleta, pobre em aminoácidos essenciais e particularmente deficiente em leucina. A whey protein, pelo contrário, é uma das fontes mais estudadas e biologicamente plausíveis para estimular a síntese proteica muscular. Quando um modelo estatístico sugere que uma proteína com perfil aminoacídico claramente inferior produz efeitos substancialmente superiores, a hipótese mais parcimoniosa não é a de um novo mecanismo anabólico desconhecido, mas a de confundimento metodológico.
A dimensão do efeito atribuída ao colagénio torna-se ainda mais absurda quando comparada a esteróides anabolizantes. No ensaio clássico de Bhasin e colaboradores, a administração de testosterona em doses suprafisiológicas (600 mg/semana) durante apenas 10 semanas resultou num aumento médio de cerca de 6 kg de massa isenta de gordura, o que, por inferência retrospetiva do SMD, corresponderia a algo entre 1,0–1,2. Um valor considerado muito grande e raro mesmo em intervenções farmacológicas, que serve aqui como referência ilustrativa de ordem de grandeza. Este estudo estabelece, na prática, um referencial superior plausível para ganhos rápidos de massa magra em humanos. Colocar o colagénio, uma proteína incompleta e pobre em aminoácidos essenciais, numa ordem de grandeza semelhante de efeito estatístico, não é compatível a evidência acumulada ao longo de décadas nem com o bom-senso.
A análise dos estudos com colagénio incluídos ajuda a explicar este desfasamento. São estudos pequenos em dimensão e duração, muitos envolvem populações destreinadas, mais velhas ou com ingestão proteica basal muito reduzida, contextos em que qualquer aumento proteico tende a gerar ganhos relativos maiores. Além disso, os métodos de avaliação da massa isenta de gordura são heterogéneos, incluindo técnicas como a bioimpedância, sensíveis a alterações de hidratação e glicogénio, o que pode inflacionar artificialmente ganhos de FFM sem corresponder a hipertrofia muscular real.
Por fim, os mecanismos propostos para justificar os resultados, nomeadamente melhoria da função do tecido conjuntivo, redução da dor articular ou maior tolerância ao treino, não resolvem o problema central. Mesmo que estes efeitos existam, não demonstram que o colagénio seja superior à whey na promoção direta de força ou hipertrofia muscular. No máximo, sugerem um papel indireto e complementar, que exigiria ensaios desenhados especificamente para testar essa hipótese. E a evidência a este nível não é favorável.
Em síntese, esta network meta-analysis não demonstra que o colagénio seja superior à whey protein. Demonstra apenas que, numa rede dominada por comparações indiretas e por um número muito reduzido de estudos com colagénio, emerge um sinal estatístico frágil e biologicamente pouco plausível. Tratar este sinal como evidência de superioridade constitui um erro científico, por desonestidade ou ignorância. Não há evidência de que o colagénio possa sequer ser uma proteína de interesse particular para hipertrofia muscular, e qualquer alegação com base neste artigo não é mais do que uma extrapolação indevida.