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Obesidade: um problema de saúde pública ou "gordofobia"?

Um tema muito polémico hoje em dia, numa época em que falar nos riscos da obesidade incorre no risco de ser acusado de #gordofobia. Mas a epidemiologia dá-nos números dramáticos no aumento do risco de doença coronária, hipertensão, insuficiência cardíaca, diabetes tipo II, alguns tipos de cancro, e uma redução da esperança média de vida em 4 anos nos homens e 3,5 anos nas mulheres. E por isso a American Medical Association e a World Obesity Federation definiram obesidade como “um processo patológico crónico”. A OMS é mais conservadora e não subscreve a classificação de doença, definindo obesidade como “um processo deletério de acumulação de gordura que representa um elevado risco de saúde”.

Não é consensual que a obesidade tenha por si um impacto directo na saúde e esperança de vida. Associação não significa por si causalidade e muito menos determinação. Um estudo relativamente recente com uma coorte Sueca sugere que a mortalidade e risco cardiovascular não difere entre obesos “metabolicamente saudáveis” e indivíduos normoponderais. Apenas aqueles que apresentam indicadores clínicos alterados à priori revelam mortalidade precoce e risco de doença cardiovascular. Outros estudos sugerem também que obesos com um boa fitness cardiorespiratória não apresentam um risco acrescido de mortalidade, e que esta se associa mais a comportamentos do que ao excesso de peso. Hábitos saudáveis diluem o efeito da obesidade, e ser obeso não significa necessariamente desleixo pela saúde.


Mas nem todos os trabalhos suportam estes resultados mais animadores. Caleyachetty et al (2017) mostrou numa coorte de 3,5 milhões de pessoas que o risco cardiovascular aumentava mesmo em obesos aparentemente saudáveis. Um risco relativo 49% superior de doença coronária, e 96% maior de insuficiência cardíaca. Já o estudo de Pizarra (2012) sugeria um aumento no risco de diabetes tipo II a 11 anos em 4 vezes para obesos saudáveis comparativamente a normoponderais, e em 10 vezes para os que apresentavam indicadores metabólicos de risco à partida. Bem menor para os “saudáveis” é certo, mas 400% não é um valor que deva ser desprezado.

Obesidade não tem de ser sinónimo de doença, e manter um estilo de vida saudável ajuda a diluir os riscos associados. Que existem e não devem ser ignorados ou amenizados. Podemos conhecer casos de obesos com uma saúde de ferro e de uma longevidade invejável, tal como fumadores de uma vida que nunca desenvolveram cancro. Não se trata de estigma ou gordofobia mas de uma associação probabilistica com a doença que satisfaz os critérios de causalidade - magnitude de associação forte, plausibilidade biológica, gradiente, direccionalidade e consistência da relação. Salientando que falamos de obesidade e não de diferentes morfologias corporais dentro de um espectro saudável. Uma mulher com 18% de massa gorda não é por isso mais saudável do que uma com 27%.

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