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O caso de Caster Semenya e a crise do género no desporto


Aproveitando o tema dos últimos dias, a legitimidade de uma atleta transgénero competir em categorias femininas, existe um outro problema associado ao sexo que gera polémica no desporto. E as atletas que são biologicamente mulheres mas têm níveis de testosterona anormalmente elevados, produzida naturalmente? Sabendo a vantagem competitiva que isso confere, o que fazer nestas situações? O comité olímpico (IOC) e a federação de atletismo (IAAF) prevêem estes casos em regulamento, obrigando as atletas a normalizar os níveis de testosterona farmacologicamente, e a mantê-los normalizados por um período mínimo antes de uma competição. Mas será legítima esta imposição? O caso de Caster Semenya em 2009 e anos seguintes deu muito que falar, e a sua luta para para poder competir entre atletas do mesmo sexo. Semenya é biologicamente uma mulher, com um infortúnio genético.


A Sul-Africana Caster Semenya foi campeã do Mundo dos 800 m em 2009 nos campeonatos de Berlim. O seu aspecto masculinizado deu que falar e várias atletas se insurgiram, alegando que Semenya era um homem. Entre elas a russa Mariya Savinova que foi superada nessa prova, mas medalhada com ouro em 2012 nos Jogos Olímpicos de Londres e vencendo Semenya que ficou em segundo. “Olhem para ela… É claramente um Homem”. Mas não. Semenya tem um pipi, que se propôs a mostrar como prova. Mas produz três vezes mais testosterona do que uma mulher normal, desenvolveu tecido testicular que não descendeu e não houve formação de um pénis. Todos os fetos são femininos até sinalizados para desenvolver caracteres masculinos. Semenya ficou no meio termo. Órgãos internos masculinizados que segregam testosterona, mas vagina e vulva como qualquer mulher.


Falei de Mariya Savinova pelo karma que lhe caiu em cima. Muito falou e criticou Semenya, mas perdeu a medalha de ouro ganha em 2012 devido a um controlo anti-doping positivo para esteróides anabolizantes. E perdeu-a para quem? Para a medalha de prata, Caster Semenya. Que produzia naturalmente aquilo que Savinova andava a tomar. Mas a história de Caster Semenya não acaba bem e deixou de competir em 2018 quando perdeu o braço de ferro com a IAAF que manteve durante anos. A federação queria obriga-la a reduzir artificialmente os níveis de testosterona, e ela recusou alegando que além de ser um atentado aos seus direitos, sentiu efeitos secundários que não estava disposta a tolerar. Nenhuma das partes cedeu, e Semenya retirou-se da competição. Nada tinha feito para ser como era, e não aceitava que alguma autoridade negasse a sua natureza.


Será legítima a obrigatoriedade de controlar artificialmente os níveis de testosterona quando as variações não são provocadas? Atletas como Caster Semenya devem poder competir com outras mulheres, sabendo que existe efectivamente uma vantagem, embora inata? É um assunto complexo e perigoso. A discriminação com base num fenótipo determinado naturalmente. Ela não pediu para ser como é, e foi-lhe negada no secretariado a sua maior paixão. Trata-se de um caso bem diferente das atletas transgénero, que mudam voluntariamente de sexo. Pessoalmente discordo da decisão da IAAF, embora entenda o descontentamento das suas rivais mais honestas do que Savinova. O caso de Semenya não é único e vários semelhantes são reportados anualmente, embora não tão mediáticos ou entre a elite do atletismo que compete pelo ouro. O desporto depara-se com um problema crítico na identidade de género que não aparenta ter uma solução que agrade a todos.

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