top of page

Atletas transgénero na alta competição

Atualizado: 25 de mar. de 2023


A federação internacional de natação impede as atletas transgénero de competir nas categorias femininas. O mesmo caminho seguiu a federação de atletismo (IAAF), com proibição efectiva a partir de 31 de Março de 2023. Decisões polémicas mas acertadas a meu ver, e que acredito virem a ser seguida por outras federações desportivas se o bom-senso e evidência prevalecerem à ideologia cega. Não existe igualdade de género no que respeita ao desempenho atlético. Não é por acaso, ou por maior empenho, que existem quase 10 000 homens mais rápidos que a mulher mais rápida do Mundo (inscritos da IAAF). Que os homens levantam em média 30% mais peso no halterofilismo, mesmo quando ajustado para a massa corporal, e dominam a generalidade dos desportos que dependem das capacidades físicas. Os homens têm maior quantidade e densidade de massa muscular, tecido conjuntivo e estruturas musculares passivas mais fortes, um maior rácio potência/peso, uma estrutura esquelética mais alongada, maior volume de sangue em circulação, uma concentração superior de glóbulos vermelhos, maior volume cardíaco e pulmonar, e um maior calibre da traqueia que confere uma capacidade e eficiência respiratória mais elevada, e portanto um VO2max cerca de 15% superior. Por isso se criaram categorias e os homens não competem com mulheres. É uma questão de justiça e inclusão, ou simplesmente elas desapareceriam do desporto de alta competição. Nem sequer se qualificariam para provas de elite.


A problemática dos atletas transgénero é complexa na sua componente moral e social, mas simples se analisarmos de forma objectiva a evidência. O dimorfismo sexual vantajoso para os homens no desporto é em grande parte conferido pelos níveis mais altos de testosterona, que se começam a manifestar na puberdade. Isso leva a um maior desenvolvimento muscular, em particular no tronco e braços, uma arquitectura das fibras contráteis distinta, e ossos mais fortes, espessos, e longos, entre outras características já referidas. Na transição de sexo de homem para mulher, os níveis de testosterona são inibidos para níveis na amplitude fisiológica feminina, 10-20 vezes mais baixos do que os homens. O IOC exige que estes níveis sejam mantidos por um período de pelo menos 1 ano antes de uma competição, abaixo de 10 nmol/L (a IAAF reduz o limiar para 5 nmol/L), mas a evidência não mostra que isso leve a uma redução de performance significativa e perda de vantagem. O desempenho parece decrescer em média ~10%, dependendo da modalidade, e mantém-se significativamente superior à média de mulheres biológicas.


Muitos dos efeitos da exposição prolongada a níveis elevados de testosterona permanecem após terapia e normalização dos valores. Por exemplo, uma estrutura óssea mais competente e alongada, um volume pulmonar e cardíaco superiores, e mais mionúcleos presentes nas fibras musculares. O que confere maior facilidade de adaptação aos estímulos de treino, e que se mantém por décadas. Mesmo a massa magra e área da secção transversal do músculo não parece decrescer mais do que 5% ao fim de 1 ano, mantendo-se bem acima da diferença média entre homens e mulheres (~40%). Perda essa que pode até ser mitigada com a prática de treino resistido, já que ao contrário da população em geral, os atletas não suspendem a actividade física durante a terapia de transição. Quanto à função muscular, a força de preensão manual parece decrescer apenas 4 a 7% ao fim de 1 ano, mantendo-se superior a 90% das mulheres. Wiik et al. mostra também que a força isocinética na extensão e flexão do joelho se mantém 50% superior a um grupo referência de mulheres biológicas após 1 ano de terapia.


Não precisamos de ir afundo na fisiologia para perceber que a vantagem de sexo existe e não é anulada pela feminização dos níveis de testosterona. Por exemplo, os homens são por norma mais altos do que as mulheres e esse crescimento é definido na puberdade com o contributo das hormonas sexuais. Têm ossos mais compridos. Pernas, pés, braços e mãos mais alongados. Ora, é fácil de entender que pernas mais longas resultam numa passada mais larga em corrida (fémur 9,4% mais comprido em média nos homens), pés e mãos mais compridos são "barbatanas" mais eficazes na natação, e os braços longos uma alavanca mais favorável nos lançamentos. O úmero de um homem é cerca de 12% mais comprido do que o de uma mulher, e o rádio quase 15%. A diferença entre o lançamento mais rápido no baseball entre homens e mulheres excede os 50%, e no serviço do ténis 20%. E uma transgénero não perde altura e comprimento ósseo na transição de sexo. Na verdade, nem a densidade mineral parece baixar significativamente até pelo menos 2 anos após início da terapia. Um estudo conclui até a manutenção 12,5 anos após transição de sexo.


Mas há quem, por pura ideologia cega, considere que as atletas transgénero devem competir com mulheres biológicas. Além dos argumentos morais e sociais legítimos, baseiam-se em 3 justificações falsas. Em primeiro lugar, que a normalização dos níveis de testosterona é suficiente para garantir paridade. Falso como vimos. A exposição a níveis masculinos durante anos confere adaptações duradouras. Apenas quando a transição de sexo é feita em fase pré-pubertária essa igualdade é aproximável. Segundo, que não existe relação entre o desempenho atlético e os níveis de testosterona. Verdade, quando comparamos homens com homens, dentro de uma amplitude fisiológica 10-20 vezes superior às mulheres. Não é por um homem ter 400 ng/dL e outro 800 que vão existir diferenças. A concentração de testosterona prevê muita coisa, como a probabilidade de ser infiel ou até a área política (estou a falar a sério), mas não a performance atlética. Contudo, comparando entre sexos essa diferença existe, e também entre as mulheres. A representação nas atletas femininas de condições clínicas associadas a hiperandrogenismo é 140 vezes superior à população em geral. A prevalência de Síndrome dos Ovários Policísticos, uma condição comum que expõe a mulher a níveis elevados de androgénios (testosterona e hormonas aparentadas), é de 37% em mulheres atletas, e apenas 10% na população em geral. E terceiro argumento, pasme-se, que as diferenças entre sexos no desempenho estão relacionados com a competitividade. Que se as mulheres competissem com homens iam esforçar-se mais. Portanto, para estes a diferença não está na biologia mas sim na falta de empenho das mulheres.


A igualdade de direitos independente da orientação sexual, sexo biológico ou transição de género não é sequer discutível. Deve ser normalizada numa sociedade avançada. Mas isso não faz de uma mulher biológica absolutamente igual a uma mulher transgénero em todas as dimensões da questão. Nem uma mulher igual a um homem. A liberdade de uns tem os seus limites na dos outros. Abrir a competição feminina a mulheres transgénero é colocar as mulheres biológicas em desvantagem competitiva. Nascer mulher torna-se uma limitação. E porque não se fala em atletas masculinos transgénero? Simples. Porque a transição não lhes confere vantagem, mas sim desvantagem em competição com outros homens. A performance não se equipara a um homem atleta de elite com a terapia hormonal, e por isso muito dificilmente aparecerá um a competir a alto nível.


A lei geral exige igualdade, e bem. Mas a letra da lei não exprime o seu espírito, cujo intuito é promover igualdade e não uma vantagem. Mais justo seria acabar com categorias de sexo, mas que levaria à insignificância das mulheres biológicas no desporto de competição. Ou voltarmos aos anos 60 e legalizar o uso de esteróides anabolizantes, permitindo que todas as mulheres "beneficiem" das vantagens conferidas pelas hormonas masculinas. Seria o fim do desporto como o vemos hoje. Idealisticamente pois na prática muito pouco já lhe resta de igualdade, justiça e verdade.


 

PLoS One. 2017 Apr 20;12(4):e0176161

Osteoporos Int. 2015 Jan;26(1):35-47

Endocr Connect. 2019 Jul;8(7):1020-1028

J Clin Endocrinol Metab. 2020 Mar 1;105(3):dgz247

Clin Endocrinol (Oxf). 2018 Jun;88(6):856-862

Eur J Endocrinol. 2018 Feb;178(2):163-171

Exp Clin Endocrinol Diabetes. 2011 Feb;119(2):95-100

Eur J Endocrinol. 2004 Oct;151(4):425-9

J Endocr Soc. 2019 Mar 15;3(5):943-964

Osteoporos Int. 2005 Jul;16(7):791-8

Br J Sports Med. 2021 Aug;55(15):865-872

J Med Ethics. 2019 Jun;45(6):395-403

0 comentário

Comments


bottom of page